THE ASTROBOY – FLOW MY TEARS

(PAD02613) CD | DL

The abstract approach of some instrumental electronic music is often related to a cinematographic universe, in which the music is usually seen as a soundtrack for an imaginary film. This notion is crystallized on Music for Films, seminal work by Brian Eno. Surely not as common is a book-inspired electronic music record. This is the case of Flow my Tears, the new record by The Astroboy, alias of Portuguese musician Luís Fernandes, and the follow-up of The Chromium Fence (2011).

The title is directly related to Flow my tears, the policeman said, awarded novel by American writer Philip K. Dick whose story is translated into music in the course of  8 tracks that define The Astroboy’s new record. The translation process isn’t made as if the record is a soundtrack to the book. Instead, the book’s dystopia and key points inspire a specific musical framework in which words act as a score, and music as a reaction.

The Astroboy’s admiration for the kosmische universe, already patent on his (also P.K. Dick related) previous work, reaches a new level with the participation of Qluster (Hans-Joachim Roedelius, Onnen Bock and Armin Metz) on two of Flow my Tears tracks. Hans-Joachim Roedelius, with his solo work, with Cluster, Harmonia or Brian Eno, personifies krautrock and the german electronic music of the seventies along with Klaus Schulze and the late Conrad Schnitzler, and has inspired a new generation of musicians in which The Astroboy deservedly belongs.

“Say Hello to Jason” and “The Jukebox”, the two Qluster collaborative tracks act as devotional moments in which our focus is not only set to space, but to the infinite space of our imagination. But the record isn’t a pure homage to The Astroboy’s beloved musical scene, and a unique artistic imprint is clearly felt all through the record, as if the artist’s main influences haven been absorbed and then recycled to originate something new. Minimalism, drama, tension and release, experimentalism and pure abstraction are some of the characteristics of The Astroboy’s work in Flow my Tears, certainly a highlight in Portuguese contemporary music.

Rui Miguel Abreu

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O carácter abstrato de muita música eletrónica instrumental costuma favorecer a associação ao universo cinematográfico e de muitas obras é comum dizer-se tratarem-se de peças para filmes imaginários, facto que encontra eco direto na seminal obra de Brian Eno Music For Films. Menos comum é a música eletrónica que nasce das páginas dos livros, mas é exatamente disso que se trata em Flow My Tears, novo trabalho de The Astroboy, projeto de Luís Fernandes que sucede a 090309 e The Chromium Fence.

Da leitura de Flow My Tears, the Policeman Said, romance de ficção científica de Philip K. Dick editado originalmente em 1974, nasceu o impulso para o novo trabalho de The Astroboy. Luís Fernandes assume gostar de trabalhar sobre «conceitos pré-definidos», ou seja, gosta de impor balizas para as suas derivas musicais. Neste caso foi a leitura de Vazio Infinito, título português da já referida obra de Philip K. Dick, que inspirou o fluxo de Flow My Tears (já o trabalho anterior remetia para o fantástico universo deste escritor). Neste caso, este novo trabalho de The Astroboy é muito menos uma tentativa de banda sonora para o universo explorado no livro, e muito mais um trabalho inspirado pela leitura, pela interpretação da distopia imaginada pelo escritor americano, pelo próprio ritmo que as páginas sugerem. A leitura como partitura. A música como reação.

Luís Fernandes nunca escondeu nas suas anteriores edições a sua dívida ao lado mais «kosmische» da música alemã dos anos 70 e neste álbum, que o músico e compositor acredita encerrar um ciclo, essa ligação foi levada até às últimas consequências através de um convite endereçado a Hans-Joachim Roedelius, uma figura incontornável na história do krautrock, género que ajudou a desenvolver ao lado de gente como Conrad Schnitzler ou Dieter Moebius no lendário Zodiak Free Arts Lab. Roedelius criou os Cluster, gravou com Brian Eno e editou alguns dos mais definitivos tratados cósmicos aplicados à música, tratados esses que têm inspirado muitos dos cultores da presente cena musical de sintetizadores, onde The Astroboy também navega.

Flow My Tears conta assim com a participação de Qluster, ou Hans-Joachim Rodelius, Onnen Bock e Armin Metz, em dois temas-chave: a peça de abertura «Say Hello to Jason» e ainda em «The Jukebox», dois planantes momentos que remetem para o espaço, mas sobretudo para esse infinito espaço interior da imaginação, onde tudo é possível.

Por alturas da edição de The Chromium Fence, Luís Fernandes assumia a influência de gente como Klaus Schulze, Cluster e Tangerine Dream, ao lado de estetas contemporâneos como Tim Hecker ou Emeralds. Em Flow My Tears percebe-se nitidamente que a visão se aprofundou e que paralelamente ao domínio das ferramentas de tradução de um pulsar cósmico se sente o crescimento de uma visão interior em que todas as coordenadas passadas e presentes se transformam em pontos de referência num mais vasto mapa pessoal capaz de carregar ainda o peso do mistério. Minimalismo, drama, tensão e libertação, desejo exploratório, abstração pura e capacidade de experimentação são algumas das características que definem o trabalho de The Astroboy em Flow My Tears, momento ímpar na produção musical portuguesa contemporânea.

 

Rui Miguel Abreu



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